Por Juliano Cortez, sócio e COO da Inventta
“Me mostra o resultado.”
De tanto ouvir essa frase de lideranças, eu já podia bordar ela numa almofada. E existe um bom motivo para o pedido. Na terceira edição do estudo O Futuro da Gestão da Inovação, que a Inventta fez com 300 profissionais, 77% reconhecem algum impacto da inovação na receita, mas só 42% conseguem comprovar esse impacto com número.
Eu vejo com frequência as empresas interromperem bons projetos de inovação em três pontos. Elas começam sem combinar com a liderança o que conta como inovação pro negócio e onde querem inovar, colocam o projeto incerto para disputar dinheiro com projetos menos incertos, como a compra de máquina e trocam o MVP ou piloto barato por um pré-projeto caro.
Mais abaixo eu conto um caso em que o time acertou o piloto, a empresa escalou o projeto e mesmo assim a liderança sentiu vergonha dele.
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O que trava um projeto de inovação depois de aprovado?
Quando um dirigente me diz que a inovação da empresa dele não sai do papel, eu respondo com três perguntas antes de qualquer diagnóstico:
- Você tem um budget específico para inovação?
- Você amarra os projetos aos objetivos estratégicos do negócio?
- O seu time conhece esses objetivos e tem competência pra fazer a inovação acontecer?
A primeira é a que o CEO menos gosta de responder. Eu pergunto do budget para saber se o projeto de inovação está competindo com projetos de menos incerteza e menos risco. No comitê de investimento, a empresa coloca o protótipo na mesma fila da empilhadeira nova. O pedido da empilhadeira tem fornecedor, prazo de entrega e payback calculado. O protótipo tem uma hipótese, e você já sabe quem leva o dinheiro.
Em 2023, eu escrevi no blog da Inventta que as lideranças prestam contas de resultado a cada trimestre. Na pesquisa deste ano, 46% dos participantes apontam a pressão por resultado de curto prazo como o principal obstáculo para inovar, o mesmo primeiro lugar das duas edições anteriores.
Você já deve ter ouvido que muita empresa desenha projeto só para passar no comitê. Eu não acho que o problema esteja aí. Todo mundo monta o projeto para o fórum onde vai apresentar e isso faz parte do jogo. Um projeto muito aprovável e inexequível só passa num comitê mal-formado, e aí você precisa rever quem senta na mesa.
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Que sinais mostram que um projeto de inovação vai morrer?
Existem vários, mas eu costumo ver três sinais mais recorrentes antes de um projeto de inovação morrer:
- O time não consegue provar valor tangível. Ele sabe que o projeto é bom, mas não consegue mostrar isso em número, e a gente volta para a frase da almofada.
- Liderança e time falam línguas diferentes. O time está lá se matando para aprovar a solução de um problema pequeno do próprio dia a dia. A liderança mede o projeto pelos objetivos do negócio e não vê valor no que o time entrega.
- Quem vai operar ou sustentar a solução está fora do projeto. A TI e as áreas que vão manter a solução funcionando só entram na implementação, quando o time já não consegue mudar o projeto sem retrabalho.
O terceiro a gente aprendeu pagando. Num projeto de estratégia de inovação com um dashboard de gestão de portfólio, a gente começou sem a TI do cliente na mesa e colheu retrabalho, atraso e muita dificuldade para documentar e implementar a solução. Na nossa base de lições aprendidas, a recomendação é mapear e envolver os principais stakeholders desde o início, com reuniões periódicas de alinhamento.
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Por que um piloto que funciona pode não convencer a liderança?
Uma empresa de utilities pagava uma consultoria para cadastrar os ativos que ela tem espalhados em campo. O time de campo propôs trazer o cadastro para dentro, com gente da casa. O piloto funcionou, e a empresa levou o projeto para a escala.
Até aqui, eu teria um case de sucesso para contar. Só que a liderança fez críticas pesadas ao projeto. Para ela, o cadastro era dever de casa do time, sem direito a selo de inovação. Enquanto a equipe de inovação tinha orgulho do projeto, a liderança tinha vergonha dele.
Quem errou nessa história? Eu vejo essa briga quando a empresa pula a conversa sobre o que ela chama de inovação. Sem esse combinado, o time defende o projeto com o resultado na mão, e a liderança discute o rótulo.
Antes do primeiro piloto, escreva numa página o que conta como inovação na sua empresa, em que temas a empresa quer inovar e que formatos valem, e peça para a liderança assinar embaixo. Mais adiante eu mostro onde um projeto como o do cadastro caberia sem constrangimento.
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Que práticas de inovação andam junto com receita nova?
Na pesquisa, a gente cruzou as práticas que geram projetos e lançamentos com a participação de produtos e serviços novos na receita. No topo estão Venture Building e programas de incubação e aceleração, os dois formatos em que alguém acompanha o projeto até ele virar negócio.
Práticas de inovação e receita nova
Venture Building e incubação lideram a associação com receita nova
% das empresas que usam cada prática e têm receita nova relevante
Venture Building
Incubação e aceleração
Pesquisa e Desenvolvimento
Inovação aberta por desafios
Codesenvolvimento
Melhoria contínua
Intraempreendedorismo
PoCs e eventos de colaboração
Programas de ideias
O Futuro da Gestão da Inovação 2026 · Inventta · 300 profissionais – 9 práticas
A gente mediu associação, sem relação de causa e efeito, e eu leio os números assim: as empresas que carregam o projeto por mais etapas, até virar solução ou negócio, aparecem com mais frequência ao lado de receita nova.
E sim, a Inventta também roda programa de ideias, que fecha a lista. Eu vejo o problema quando a empresa coleta centenas de ideias e para ali. Esse é o jeito fluffy de fazer inovação: evento com post-it, foto para o LinkedIn e uma planilha de ideias que ninguém abre depois. No nosso Programa de Inovação, a geração de ideias é o terceiro de quatro blocos, e o último é a implementação dos projetos priorizados.
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Como tirar um projeto de inovação do papel?
Se eu tivesse que defender só três práticas numa briga de bar, seriam estas.
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Combine os temas com a liderança antes de pedir ideias
Começar alinhado à estratégia não garante que o projeto vai dar certo, mas começar desalinhado garante que não vai dar. Por isso a gente abre o Programa de Inovação pelo direcionamento: um diagnóstico de maturidade e um workshop de desafios e territórios de oportunidade com a liderança, antes de qualquer ideação. Eu descrevi essa lógica de where to play e how to win no texto sobre P&D, e as perguntas que conectam um programa de inovação à estratégia estão em outro texto meu.
Na implementação, cada projeto tem um dono do produto, o PO, que pode ser o sponsor da liderança, e o time trabalha em sprints de uma semana. Quando o sponsor prioriza o backlog, liderança e time param de falar línguas diferentes. E chame a TI e as áreas que vão operar a solução para a primeira reunião.
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Garanta dinheiro próprio, com régua própria
Mas então, como tirar o protótipo da disputa com projetos de capex? Você fecha o orçamento de inovação antes de o comitê montar a fila. A gente organiza essa decisão em duas partes: uma conta e uma tabela.
A conta: sente com a liderança e responda que parcela do crescimento esperado para os próximos anos vai vir de produtos e negócios que ainda não existem. Com esse número, você define o tamanho do bolso da inovação.
A tabela: divida o bolso por horizonte, cada um com a sua régua. A divisão clássica, de Bansi Nagji e Geoff Tuff num artigo da Harvard Business Review, é 70% no core, 20% em adjacências e 10% em apostas transformacionais. A gente usa esses números como ponto de partida e calibra pela maturidade e pelo apetite a risco de cada empresa.
Portfólio de inovação · 70-20-10
Três horizontes, três réguas
Cada horizonte tem sua fatia de partida, seu tipo de projeto, sua forma de medir e seu jeito de liberar recursos.
Fatia de partida do orçamento
Horizonte 1
O que entra
Melhoria do que a empresa já vende e opera
Régua
Ganho em número auditável, ligado ao planejamento financeiro
Como o dinheiro sai
No ciclo de orçamento, com escopo e prazo curtos
Horizonte 2
O que entra
Produto atual em mercado novo, ou produto novo no mercado atual
Régua
Hipótese validada a cada etapa
Como o dinheiro sai
Por etapa, a cada portão aprovado
Horizonte 3
O que entra
Negócio ou modelo de negócio que ainda não existe
Régua
Hipótese validada a cada etapa
Como o dinheiro sai
Por etapa, com autonomia para encerrar o projeto
Inventta · Gestão do portfólio de inovação
Nas apostas, a liderança libera o dinheiro por etapa: teste de conceito, MVP, piloto e escala. A cada portão aprovado, ela assina o próximo cheque, e encerrar um projeto no portão conta como decisão bem tomada. Sem essa regra, a empresa mantém projeto zumbi no orçamento porque ninguém quer assinar o atestado de óbito. Para esticar o bolso, use fomento e incentivo fiscal, como FINEP e Lei do Bem, e parcerias de codesenvolvimento.
A liderança olha as três carteiras no mesmo fórum, cada uma com cadência de revisão e alçada próprias. Ali ela decide a proporção sabendo o que está trocando e mata o projeto que deixou de atender aos critérios. Com essa tabela, a empresa de utilities teria colocado o cadastro de ativos na carteira de core, como projeto de eficiência com ganho medido.
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Capacite as pessoas para validar barato
Capacite o time para fazer prototipação rápida e testar a ideia com MVP de baixa qualidade. Quando o time validar a hipótese, você investe tempo e dinheiro para construir a solução. No nosso catálogo de ferramentas, a gente deixou um alerta na ficha do piloto: sem MVP nem prova de conceito, ele tende a sair caro e arriscado.
Num projeto do agronegócio, a gente testou uma plataforma de intermediação de serviços sem construir a plataforma: landing page, WhatsApp, uma planilha de Excel e gente fazendo o match na mão. Antes de investir no desenvolvimento, o time descobriu que a divulgação pelos parceiros locais não bastava para atrair usuários e que quem recebeu proposta não torceu o nariz para a taxa de intermediação. Se tivesse caprichado no acabamento, o time teria gastado antes da hora.
Na Mineração Jundu, a gente combinou direcionamento estratégico, capacitação de 25 lideranças e validação de conceitos com o mercado. Das 250 ideias geradas, o time da Jundu levou 7 a business case e implantou um negócio novo em 7 meses, a Super Quadra Jundu, fora do core da mineração e alinhado à estratégia da empresa.
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Como responder ao “me mostra o resultado”?
Volto para a frase da almofada. Na mesma pesquisa tem outro 46%, e esse eu acho pior: quase metade dos participantes diz que a empresa não mede quanto da receita vem de produtos e serviços lançados nos últimos três anos. Sem essa conta, você chega no comitê com uma opinião, e quem pediu a empilhadeira chega com payback calculado.
Escolha o indicador antes do piloto. A receita de produtos e serviços com menos de três anos é um bom começo, porque com ela você responde ao CEO em uma linha. A gente acompanha esse mesmo indicador nos programas de inovação que conduz. Leve esse número para cada portão de decisão.
A gente detalhou os dados da pesquisa neste artigo sobre crescimento e receita, e o estudo completo está aqui. Se você tem projeto de inovação parado no papel, fale com a gente.
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Perguntas frequentes
Por que projetos de inovação não dão resultado?
Os motivos que eu mais vejo: a empresa começa o projeto sem conexão com a estratégia, coloca o projeto para disputar orçamento com investimentos de menor risco e pula a validação barata antes do piloto. No estudo O Futuro da Gestão da Inovação 2026, 46% dos participantes apontam a pressão por resultado de curto prazo como o principal obstáculo para inovar.
Inovação precisa de orçamento próprio?
Precisa. Quando a empresa coloca um projeto incerto para disputar o mesmo orçamento da expansão e da compra de máquina, o comitê escolhe o investimento de menor risco. Separe o orçamento por horizonte, com uma régua para cada um, e libere o dinheiro das apostas por etapa, conforme o time valida cada hipótese.
Qual a diferença entre MVP e piloto?
Com o MVP, protótipo ou a prova de conceito, o time testa se as pessoas entendem e querem a proposta de valor, gastando o mínimo. Com o piloto, o time valida a operação e os resultados de uma solução mais concreta, na primeira experiência real de uso. Faça o MVP antes: piloto sem MVP nem teste de conceito tende a sair caro e arriscado.
Como medir o resultado da inovação?
Comece por um indicador que o CEO entende: quanto da receita vem de produtos e serviços lançados nos últimos três anos. Na pesquisa da Inventta, 46% dos participantes dizem que a empresa ainda não mede esse número. Defina o indicador antes do piloto e acompanhe o número a cada portão de decisão.
Fontes
- Inventta Wiki: Programa de Inovação, Gestão de Portfólio de Inovação, Catálogo de Ferramentas do Programa de Inovação, Execução de MVP e lição aprendida 20723ACO-EST





