Por Vinícius Arantes, Digital & AI Manager na Inventta
Numa conversa recente com uma multinacional, ouvi uma pergunta que me fez repensar esse tema.
A empresa tinha feito quase tudo que as checklists de prontidão pedem. Licenças de IA liberadas para o time, uma ferramenta interna lançada, capacitações rodando. As pessoas já criavam seus próprios agentes fazia meses. E a pergunta na mesa era: quantos desses agentes fazem a mesma coisa? E por que cada um foi criado?
Ninguém sabia responder. Fiquei com isso na cabeça. Se uma empresa que fez a lição de casa chega nesse ponto, talvez a pergunta “minha empresa está pronta para adotar IA?” esteja mal formulada.
A pergunta
Ela parte da ideia de que prontidão é um estado. Você organiza os dados, monta a infraestrutura, aprova a política de uso, cria o comitê, define a estratégia… e um dia acorda pronto.
No estudo de maturidade em IA que liderei na Inventta, com 97 médias e grandes empresas brasileiras, menos de 30% tinham uma estratégia de IA bem definida. E menos da metade dessas comunicava a estratégia para dentro da empresa. Se estratégia definida fosse pré-requisito, 7 em cada 10 empresas estariam paradas. E elas não estão. A IA já está sendo usada, com ou sem plano.
A meu ver, prontidão se parece mais com um movimento. Ela vai aparecendo em sinais, e o trabalho é perceber esses sinais e dar direção para eles.
Os sinais
Nos clientes que acompanho, vejo quatro sinais aparecerem:
- Um problema concreto e com nome. “Queremos usar IA” não conta. Algo como “o fechamento do mês leva dez dias e precisa levar cinco” conta.
- Gente usando IA por conta própria.
- Alguém com poder de decisão que aceita errar pequeno e rápido.
- Abertura para começar com uma governança mínima.
Eles não chegam juntos. Às vezes o uso aparece antes do problema, às vezes o patrocinador chega antes de qualquer uso. Não precisa ter os quatro para começar.
Uma organização do terceiro setor com quem trabalhamos neste ano é um bom exemplo. Parte do time já usava IA com frequência, em contas pessoais. Ninguém tinha combinado o que podia ou não ser compartilhado com a ferramenta, e o uso era individual e limitado. Eles não esperaram ficar prontos: procuraram ajuda para garantir bons casos de uso e uma direção comum. O sinal já estava lá.
O custo de esperar
Quando a empresa ignora esses sinais, o uso continua crescendo do mesmo jeito, só que sem direção. E aí aparecem:
- dados da empresa circulando em ferramentas sem governança;
- pilotos espalhados, sem dono, alguns fazendo a mesma coisa;
- esforço indo para frentes que não conversam com os objetivos da empresa.
O estudo mostra o tamanho disso. 36% das empresas não sabem medir o resultado da IA em eficiência, e 21% dizem não ter resultado nenhum. Em receita, 39% não sabem medir e 41% não tiveram resultado.
Tem um dado que ajuda a entender por quê. Nas empresas que não tiveram nenhum resultado em eficiência, as barreiras mais citadas foram falta de prioridade da liderança e ausência de casos de uso. As duas são falta de direção. Movimento orgânico sem direção também não entrega. O sinal é necessário, mas não basta.
Onde sua empresa está
Gosto de olhar isso em dois eixos: quanto a empresa já usa IA e quanto esse uso aponta para o que importa para o negócio.
Prontidão para inteligência artificial
Onde está a sua empresa?
Prontidão para IA aparece no movimento: quanto a empresa já usa e para onde esse uso aponta.
alto
USO DE IA
baixo
Uso alto · Sem direção
Uso sem rumo
Licenças liberadas e agentes sendo criados, sem visibilidade de por quê. Pilotos repetidos, sem dono e longe dos objetivos.
direcionar
⟶
Uso alto · Com direção
Movimento direcionado
O uso aponta para problemas que importam para o negócio. A governança cresce junto com o uso.
▲
o uso cresce sozinho
▲
incentivar o uso
Uso baixo · Sem direção
Esperando ficar pronto
Gente usando IA por conta própria, em contas pessoais. Dados da empresa circulando sem governança.
Uso baixo · Com direção
Estratégia no papel
Comitê, política e checklist aprovados. Pouca gente usando de fato.
sem direção
com direção
Direção para o negócio
Vinícius Arantes · Digital & AI
- Esperando ficar pronto: pouco uso oficial, gente usando por conta própria, dados sem governança.
- Estratégia no papel: comitê, política e checklist aprovados, pouca gente usando de fato.
- Uso sem rumo: muito uso e nenhuma visibilidade de por quê. A multinacional do começo está aqui, e ela fez quase tudo certo.
- Movimento direcionado: o uso aponta para problemas que importam, e a governança cresce junto.
Quem espera ficar pronto raramente fica parado. O uso cresce sozinho e a empresa acaba no uso sem rumo.
Quatro movimentos
Quando os sinais aparecem, o que faço com os clientes é rodar um ciclo de quatro movimentos. Um ciclo que se repete enquanto a empresa usa, e não etapas para cumprir antes de começar.
- Mapear onde a IA já está sendo usada e para quê.
- Confrontar com a estratégia. O uso aponta para o que importa? Às vezes a resposta é repriorizar os esforços. Às vezes é rediscutir os próprios objetivos, porque o uso mostrou algo que o planejamento não viu. É o movimento que mais vejo ser pulado.
- Escolher e sustentar. Poucos problemas, recurso garantido, governança mínima, decisão do que construir e do que comprar, capacitação começando por quem já usa. Recurso aqui é bem concreto: no estudo, resultados relevantes em custo (acima de R$ 10 milhões por ano) só apareceram em empresas com pelo menos uma pessoa dedicada a IA.
- Testar rápido, juntar evidência e voltar para o primeiro movimento.
Sobre governança: no começo ela pode ser leve, o bastante para liberar o uso e a criação de agentes sem um fluxo de aprovação burocrático. Ela cresce conforme o uso amadurece. Em setor regulado, algum controle vem antes por obrigação, e tudo bem. O problema é transformar governança em pré-requisito para qualquer uso.
A pergunta certa
Então, como saber se sua empresa está pronta? Eu trocaria a pergunta: o que sua empresa já está pedindo, e para onde você está direcionando isso?
Ainda não tenho uma régua fechada para dizer quando a governança precisa subir de nível. Acho que muda de empresa para empresa e talvez mude a cada semestre, do jeito que as ferramentas estão evoluindo.
Se você está vendo esses sinais aí dentro e quer trocar uma ideia, me chama aqui.
Fonte dos dados: Inventta, Maturidade em IA nas Empresas, novembro de 2025, 97 respondentes de médias e grandes empresas brasileiras.





