Convidamos o fundador da Inventta, Bruno Moreira, para escrever sobre um assunto urgente: o impacto da inteligência artificial na formação de analistas e no futuro das consultorias.
Nas linhas a seguir, você encontrará uma reflexão sobre ferramentas, capacidade analítica e resolução de problemas. Pegue seu café, silencie as notificações do celular e boa leitura!
O trabalho por trás da análise
Da pergunta
à recomendação: problem solvers
01
Entender o problema ou desafio
02
Levantar hipóteses sobre a causa raiz
03
Coletar dados
04
Elaborar análises ou modelos
05
Tirar conclusões
06
Propor recomendações
Uma recomendação precisa ser sustentada pelo
caminho percorrido até ela.
Devido à minha natural curiosidade por ferramentas e às competências adquiridas no curso de engenharia e nos estágios como programador, tornei-me especialista nas principais ferramentas de análise disponíveis quando entrei no mercado de trabalho, como planilhas eletrônicas e bancos de dados.
Com esse conhecimento, frequentemente me pegava imaginando como deveria ser difícil a vida dos consultores antes da existência dessas ferramentas.
Fazer análises não era o meu principal desafio, mas sim encontrar fontes de dados e informações para analisar.
Um dos diferenciais das grandes consultorias daquela época era a capacidade de acessar grandes bases de dados com informações de mercado e estudos úteis para qualquer consultor: tamanho de mercado, penetração de produtos, curvas de crescimento, indicadores econômicos, entre outros.
Logo no início do meu trabalho na saudosa Cluster Consulting, fiquei encantado ao saber que existia até um departamento — o Knowledge Center — responsável exclusivamente por prover e gerenciar o acesso a essas importantes fontes de dados. Eram elas que embasavam nossas análises e recomendações nos projetos.
Foi nessa época também que aprendi que não há informação no mundo que não possa ser obtida, desde que se esteja disposto a arcar com o custo de adquiri-la. Literalmente.
Avançando no tempo, hoje muitas dessas informações, que há duas décadas eram privilégio de poucos, estão amplamente disponíveis e acessíveis a um clique — embora, por vezes, um pouco desatualizadas.
Somam-se a isso novas ferramentas de análise e visualização de dados, que tornam o trabalho de um bom consultor muito mais eficiente.
As ferramentas de inteligência artificial, com a elaboração de um bom prompt, parecem, como num passe de mágica, cobrir etapas típicas do processo de consultoria: da coleta de dados à elaboração de análises, conclusões e recomendações.
Problem Solvers: Ótimo! Só que não.
A verdade é que muitos jovens que estão ingressando agora no mercado de trabalho, encantados pelos prompts e pelas ferramentas de IA, estão deixando de aprender os fundamentos de uma boa análise.
- Não sabem onde encontrar informações relevantes, mesmo estando elas cada vez mais acessíveis.
- Não conseguem realizar um sanity check — uma checagem básica de coerência — para avaliar se as informações obtidas fazem sentido.
- Não sabem como utilizar ou apresentar essas informações de forma adequada.
- Não conseguem criar modelos para estimar mercados ou realizar análises financeiras simples.
- Têm dificuldade em gerar conclusões lógicas e bem fundamentadas nas análises — que sequer realizaram.
Recentemente, em um processo seletivo que conduzimos na Inventta, uma candidata foi convidada a apresentar um case de negócio, etapa que sempre propomos aos candidatos mais avançados no processo.
Ela trouxe slides bem elaborados, análises feitas e recomendações interessantes… mas que não resistiram às primeiras perguntas do recrutador.
A candidata não soube explicar sequer a origem das informações utilizadas, muito menos como chegou às recomendações apresentadas. Ela não conseguiu superar nem o primeiro “por quê” sobre suas conclusões.
Esse episódio tornou-se até uma piada interna na Inventta, quando cunhamos o termo CHATPPT, referindo-se àquele PowerPoint gerado a partir de um simples copiar e colar do resultado de um prompt no ChatGPT. Um verdadeiro absurdo.
Estamos claramente enfrentando um momento de escassez de bons analistas. Pior ainda: falta gente boa para enfrentar e resolver problemas.
Está cada vez mais difícil encontrar jovens profissionais com a competência — ou, ao menos, o potencial — para realizar boas análises. O impacto disso no mercado de consultoria é uma custosa queda na qualidade dos trabalhos entregues.
E, quando pensamos que a situação não pode piorar, a falta de foco dos jovens, abduzidos pelas redes sociais, está resultando em uma geração dispersa e superficial, incapaz de se aprofundar em temas complexos ou de compreender adequadamente os fundamentos de um problema.
Ou seja, muitos sequer sabem formular a pergunta correta para iniciar a solução de um desafio.
Não podemos permitir que alguém, sem saber onde quer chegar, escolha qualquer caminho apenas por ser mais fácil.
Vida longa e próspera aos verdadeiros problem solvers!