Desde a regulamentação da Lei de Inovação, em 2005, as Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) espalhadas pelo país passaram a ter a obrigatoriedade de dispor de um Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), próprio ou em associação. Um dos objetivos dessa proposta é que as ICTs estabeleçam uma aproximação maior com o mercado, dialogando e atuando em conjunto com as empresas.
Em Belo Horizonte, um exemplo dessa sinergia é o projeto realizado pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear. O CDTN, que já atua em parceria com empresas há muitos anos, buscou a consultoria da Inventta para aprimorar os processos de negociação e comercialização de tecnologias.
O projeto foi dividido em três principais etapas: na primeira, foi realizado o mapeamento das tecnologias desenvolvidas no CDTN, por meio de entrevistas com os pesquisadores e da avaliação do potencial de mercado de cada uma. Posteriormente, foi feita a priorização daquelas que estavam em estágio de desenvolvimento e direcionamento mais propícios à transferência. Na última etapa, realizou-se uma abordagem ativa aos possíveis interessados nas tecnologias selecionadas.
Na primeira etapa do projeto, além do levantamento de tecnologias, foi apresentado um seminário para os pesquisadores do CDTN e representantes do NIT. O objetivo foi discutir os principais conceitos aplicados para a análise de tecnologias e detalhar a metodologia da Diligência da Inovação utilizada, que permite avaliar diversas características da tecnologia e definir os direcionamentos necessários para adequá-la ao contexto mercadológico. “O CDTN possui tradição nessa relação com o mercado. Vários projetos já haviam sido executados anteriormente com outras empresas. Nosso esforço não foi para tentar solucionar um problema específico que eles possuíam, mas para potencializar um processo que eles já desenvolvem”, explica o analista Renato Lacerda.
Do levantamento inicial, foram mapeadas e analisadas 17 tecnologias. Para cada uma delas, os dados foram documentados e inseridos no Sistema Plataforma Inventta, software disponibilizado para o gerenciamento do portfólio de projetos e transferência de tecnologias da instituição.
Das tecnologias mapeadas e analisadas, três, que tinham maior potencial de mercado, foram selecionadas na segunda fase para apresentação a possíveis interessados. “A partir de uma metodologia de classificação, foram definidos quais projetos possibilitavam uma aproximação mais efetiva com o mercado”, explica a responsável pelo NIT-CDTN, Régia Ruth Ramirez Guimarães.
Novos materiais de grafite
O projeto novos materiais de grafite gerados a partir da aplicação de nanotecnologia consiste no desenvolvimento de novas soluções para agregar valor aos produtos já comercializados por uma empresa parceira do CDTN, líder mundial na produção de grafites.
Como essa tecnologia já possuía um direcionamento específico, o trabalho da Inventta consistiu em apoiar e fortalecer a parceria entre a empresa e o Centro, visando avançar no processo de parceria de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) entre essas duas instituições. Também foi organizada uma reunião com representantes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com o objetivo de discutir as possibilidades de recursos para a inovação aplicáveis ao projeto.
Vacinas fúngicas
A paracoccidioidomicose e esporotricose são doenças causadas por fungos que acometem seres humanos e animais. As doenças fúngicas estão entre as doenças ditas negligenciadas, mais comuns em países tropicais em desenvolvimento do que em países ricos. A tecnologia proposta visa auxiliar na prevenção dessas enfermidades.
A Inventta atuou na identificação de empresas de saúde animal – priorizadas por questões legais – que poderiam ter interesse no projeto. Das empresas prospectadas e abordadas, duas apresentaram maior interesse. Para elas foram apresentados detalhes das tecnologias e a interação deverá se desdobrar em futuras parcerias.
Reaproveitamento de rejeitos
A tecnologia de reaproveitamento de rejeitos dos postos de combustíveis tem como principais beneficiários os próprios postos, evitando multas por descumprimento de regulamentações ambientais. O trabalho resultou no contato com o Sindicato dos Proprietários (MinasPetro) para apresentação da tecnologia. Com base nos feedbacksapresentados, optou-se por uma revisão e reavaliação do modelo de negócio e do potencial de mercado.
Na visão da responsável pelo NIT-CDTN, Régia Guimarães, todo esse trabalho tem um caráter fundamental dentro da proposta da instituição, que é o de ajudar o setor produtivo a se desenvolver. “A economia mundial é baseada, essencialmente, em tecnologia”, resume.
A opinião é corroborada por Sérgio Filgueiras, tecnologista que integra a equipe do NIT. “A sociedade brasileira cobra cada vez mais das instituições um retorno do que é produzido. E esse retorno deve se dar não só em forma de produção acadêmica, mas também em disponibilização de conhecimento para o aumento da competitividade”, argumenta. Para ele, o aprendizado trazido pela consultoria terá efeitos de longo prazo. “A Inventta veio nos ajudar na formação de uma nova cultura”, finaliza.